domingo, 2 de julho de 2017

Black Mirror - O apocalipse tecnológico

Black Mirror
Charlie Brooker comenta sobre a abertura da série: "Se tecnologia é uma droga — e parece ser uma droga — então quais são, precisamente, os efeitos colaterais?" Esta área — entre prazer e desconforto — é onde Black Mirror, minha nova série dramática, se passa. O "espelho negro" da abertura é o espelho que você encontrará em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone"


Black Mirror é uma série de televisão britânica, desenvolvida por Charlie Brooker, série essa que possui a ficção científica e o terror psicológico como temática, a série aborda de forma satírica um futuro com uma tecnologia bem mais avançada do que a que possuímos e, convenhamos, que bem mais problemática. Podemos perceber muitas críticas relacionadas à nossa maneira de viver atualmente, com todo o conforto (muitas vezes ilusório) da evolução tecnológica, o vício em redes sociais (que só parece aumentar) e os malefícios que essa tecnologia pode causar, nos levando a refletir por um tempo o "por que" de sermos tao apegados à tais coisas materiais ao ponto de parecermos escravos das mesmas. 

A série possui atualmente três temporadas, as duas primeiras lançadas em 2011/2013 respectivamente, ambas exibidas pela emissora Channel 4. 


Temporadas e enredo

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Charlie Brooker, idealizador da série.


(Ironicamente) graças à atenção que a série chamou, a terceira temporada passou a ser transmitida em 2016 pela Netflix, conquistando um público maior e se popularizando ainda mais. Cada episódio conta com um elenco, uma realidade (enredo) e personagens diferentes, (quase) todos possuindo o mesmo clima tenso e atmosfera mórbida.

As duas primeiras temporadas tiveram ambas apenas três episódios (além de um especial de natal), cada um mais inovador que o outro, porém, a terceira contou com o dobro, isso é, seis episódios. Ao ser atribuída à Netflix muitos telespectadores acreditaram que a série perderia uma parte de sua originalidade, mas parece que isso não atrapalhou em nada o desempenho de Charlie Brooker.

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Cenas finais do primeiro episódio da primeira temporada de Black Mirror, intitulado "National Anthem".


A quarta temporada já foi encomendada pela Netflix  e está prevista para o final deste ano de 2017, a quantidade de episódios será a mesma da terceira temporada, e segundo Brooker, trará a mesma atmosfera de tensão misturada com o medo e a controvérsia presente nas temporadas anteriores.

Black Mirror já chega com estilo em seu primeiro episódio (National Anthem), onde a princesa do Reino Unido é sequestrada e em troca de sua liberdade e integridade física os sequestradores nao exigem dinheiro algum, apenas que o primeiro-ministro pratique zoofilia em rede nacional para todo o país e o mundo assistir (uma maneira bem peculiar de "trollar" um político), o fato logo viraliza por meio da mídia e das redes sociais e atrai atenção do mundo inteiro.

O que acontece? Se tiver estômago, assista e descubra.

Outro episódio que mexeu de certa forma com meu psicológico (e com certeza a de muitos que assistiram) foi o Fifteen Million Merits, segundo episódio da primeira temporada, que aborda uma estranha realidade onde as pessoas vivem praticamente escravizadas em um tipo de sistema tecnológico onde a única tarefa que devem cumprir é pedalar em bicicletas ligadas em monitores eletrônicos que contabilizam pontos (o que parece ser a moeda utilizada em tal universo), simulando nos monitores jogos interativos.

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Cenas do segundo episódio da primeira temporada, intitulado "Fifteen Million Merits"


Cada personagem possui um avatar virtual e podem participar também de um programa televisivo de talentos (o que lembra bastante programas como o XFactor, The Voice, entre outros do mundo real), ao participar de tal programa, o protagonista do enredo percebe que a realidade é bem mais suja (digamos assim) do que ele imaginava, descobrindo que até os que não querem ser vistos ou tratados como produtos, são vistos e usados dessa maneira.

Uma forte crítica ao material fútil produzido pela televisão e a sociedade que consome esse mesmo material, se tornando alienada de uma maneira extrema. O episódio é uma hipérbole dos tempos modernos, mostrando até que ponto o ser humano pode chegar graças as evoluções tecnológicas. 

Outro episódio que não poderia faltar nessa matéria é o primeiro da segunda temporada, intitulado "Be Right Back" um dos mais bizarros ao meu ver pelo fato de abordar sentimentalismo e tecnologia com uma linha bem tênue. Em um futuro (talvez não muito distante), um programa de computador capta todas as lembranças registradas de alguém que já morreu e simula um bate papo onde é possível conversar até mesmo através de chamadas de voz. 

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Cenas do primeiro episódio da segunda temporada


Mas as possibilidades tecnológicas vão muito mais além, o episódio aborda o tema "Inteligencia Artificial", e o tal programa de computador apresenta um projeto que permite o ente querido reencontrar o amado(a) falecido(a) na vida real, se trata de um androide semelhante a um ser humano, semelhante até demais, sendo capaz de falar, conversar, interagir, beijar e até mesmo manter relações sexuais.

O clima desse episódio é muito tenso graças a presença do androide, que se mostra inofensivo no início, mas com o desenrolar do enredo se torna perceptível o quão é difícil adaptar-se à um relacionamento (principalmente amoroso) com quem não esta mais vivo.

Assisti a série diversas vezes, são muitos os episódios que gostei e poderia comentar aqui, mas prefiro deixar que descubram sozinhos para finalizar, o episódio que me vem em mente é o segundo da terceira temporada, intitulado "Playtest", abordando o universo da realidade virtual.

Temos nesse episódio da mais recente temporada (até agora) um rapaz norte-americano que, necessitando de dinheiro, busca novas oportunidades em Londres até que se propõe a participar de um futurístico sistema de jogos virtuais que apresenta a ideia de jogar dentro da própria mente um jogo de horror que tem funcionamento através de um implante realizado no cérebro.

O que começa de uma forma divertida e até atraente acaba se tornando um pesadelo, como o implante no cérebro capta a memória para ser utilizada na reprodução do cenário do jogo, o rapaz vai parar em um lugar onde seus piores medos se reproduzirão por meio da realidade virtual.

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Cenas do segundo episódio da terceira temporada, intitulado "Playtest"


Eis aí mais um episódio com uma proposta bastante original e seguindo os parâmetros da tecnologia, mostrando onde até a mesma pode chegar, compactuando bem a ideia de terror psicológico (de um modo literal). 

Black Mirror lembra bastante outro seriado televisivo, esse por vez de 1959 intitulado "The Twilight Zone" com uma temática e abordagem semelhante, seus episódios também não possuem cronologia ou ligação no enredo e o elenco também é variado.

Black Mirror, porém se trata se uma série atual que teve início alguns anos atrás e promete ainda muita inovação, resta a nós esperar pela quarta temporada e rever os outros episódios, quanto a você que ainda não assistiu recomendo adicionar a série a sua lista. Prepare o psicológico, quem sabe uma pipoca e um café, depois aperte o play.




David Alves Mendes